Por Georgia Kirilov

Existem momentos na história da humanidade que coexistem no axis temporal para a criação de cenas e expressões artísticas que somente seriam resultado da combinação desses elementos. O desenvolvimento do techno em Berlim foi uma dessas cenas que nasceu da coexistência do desenvolvimento do estilo musical em Detroit nos anos 80, a queda do Muro de Berlim em 1989 e o processo de reunificação entre Berlim Oriental e Ocidental. De certa forma foi a própria cena do techno que promoveu a reconstrução do senso de comunidade entre as duas partes da cidade.

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A parte que ficou oeste do muro e era controlada pelos Estados Unidos, o Reino Unido e a França e era conhecida pelo seu status moralista e o clima conservador. No lado leste, controlado pela União Soviética, o clima era de repressão também devido ao controle excessivo do governo comunista. Devido à Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética o Muro para dividir fisicamente as duas partes da cidade foi erguido em 1961 e somente derrubado 28 anos depois. Colocando em contexto, é compreensível o porque Berlim floresceu em todas as frentes criativas como uma Fênix ressurgindo das cinzas, pois a luta pela liberdade após tantos anos de repressão guiava o coração das mentes criativas que passaram a criar nichos, cenas e movimentos artísticos no começo dos anos 90.
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Foi a fusão de todos esses elementos que deram luz a história profunda, efêmera e intensa que passou a existir entre Berlim e o techno. As verdadeiras estrelas da cena naquela época não eram os DJs e sim os locais aonde as festas aconteciam. Existia toda uma gama de prédios com funções diversas abandonados entre a parte leste e oeste aonde o Muro costumava ficar e foi ali que um paraíso raver tomou forma com festas ilegais acontecendo em lugares como uma fábrica de eletricidade abandonada e galpões de guerra. As festas não aconteciam sempre nos mesmos lugares e o público era atraído pelo boca boca. Três festas que desempenharam papel essencial no desenvolvimento da cena eram: Trésor, E-Werk e Der Bunker. Somente a primeira continua aberta até hoje, tendo reaberto em 2007 no bairro Mitte. O que era de fato impressionante na cena do Techno na cidade naquela época era a maneira com a qual as pessoas pensavam e interagiam com espaços, explorando as infinitas possibilidades da interação sonora e espacial.
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A primeira balada fixa de techno se chamava UFO Club e só seu nome com referência espacial já serve como indicativo para a vontade que existia de se escapar, fugir para outro lugar. As três comunidades mais significativas da cena naquela época eram as pessoas que eram os exploradores urbanos que iam para a parte Oriental de Berlim para analisar as possibilidades, a comunidade do leste que trazia consigo vertentes de som bem mais pesadas, e, principalmente, a comunidade gay. Muito da libertinagem da cena se deve ao momento decisivo que foram os anos 90 para a comunidade LGBTQ que perdeu milhões para a epidemia de AIDS que afetou o mundo inteiro. A importância do amor, do orgulho e da resistência é muito do que manteve esse coletivo dançando em meio ao fogo e enfrentando a morte com vitalidade sem tamanho.
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O Techno serviu como um verdadeiro símbolo de união e inclusão social, unindo pessoas de todas as raças, gêneros, identidades sexuais e etnias na mesma pista. Seus corpos movendo ao som da mesma track, seus olhos se encontrando por instantes e a prova final de que a grande maioria do que acreditamos serem abismos entre nós são somente criações da sociedade que servem para nos reprimir.
Force on the dancefloor! 

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