Por Georgia Kirilov
Qualquer um que vai para Itália comer a pizza “original” (afinal de contas como definir o primogênito hoje em dia? o que é, de fato, original?) sabe que a nossa versão de pizza é bem única. Rodízio de pizza então? Nunca vi fora dessas terras tropicais. Aliás rodízio de toda e qualquer coisa é uma mania bem das brasileiras. A lista é infinita, o amado strogonoff veio da Rússia, o querido sushi veio do Japão e os cupcakes vieram dos Estados Unidos. Não são tantas as coisas, como brigadeiro e caipirinha, que podemos inflar o peito e dizer: fomos nós que inventamos (a não ser o avião, todo mundo sabe que foi Santos Drummond e não os irmãos Wright, convenhamos). Porém não tem nada, absolutamente nada, que o brasileiro não se aproprie e converta totalmente com o seu jeitinho brasileiro. Com o techno não poderia ser diferente.
A imagem pode conter: 1 pessoa, noite e close-up
Victor Enzo é artista da Nin92wo e um dos brasileiros mais expoentes no cenário nacional
Um fenômeno relativamente novo, o Techno passou a fazer parte da cultura musical de cidades como Berlim e Detroit no final dos anos 80 e atingiu seu pico nos anos 90. Vale ressaltar que o house e o disco chegaram antes em terras brasileiras, por motivos óbvios que são reflexões da personalidade sorridente do brasileiro. Porém não demorou para a ousadia do underground, a provocação do dark, e o mistério do Techno conquistarem as pistas país afora. O sul teve um papel especialmente proeminente nesse desenvolvimento, muito provavelmente devido ás suas heranças europeias (as maiores colônias Alemãs, Italianas e Francesas são no sul) e também ao clima mais fechado, mais frio, mais distante. Hoje em dia essa região se mantém no destaque com instituições essenciais como o Warung e Club Vibe que carregam o peso de formar opiniões e gostos para o consumidor da cena clubber brasileira. E é ali também que outros nomes surgem e se estabelecem como o Beehive e o Chakra Club, entre tantos outros que ao lado de diversos coletivos independentes estão fazendo a diferença quando se trata de desenvolver a cena com uma consciência de integração urbana e cunho político que é admirável.
Alex Justino comandando o pistão do Warung Beach Club
Porém não é somente no sul que o estilo se desenvolveu, nós mesmos somos baseados em Goiânia buscamos muito disseminar o estilo em partes do país aonde o Techno não alcançou grandes números com tanta naturalidade. É essa disseminação do estilo que passa a comprovar o ponto feito no início do texto: por bem, ou por mal, o jeitinho brasileiro consegue corromper tudo aquilo que se apropria. Hoje em dia, o nosso Techno oferece um calor, uma proximidade e uma dinâmica fluída que é única dos nossos produtores, da nossa pista e do nosso público. De alguma maneira que vai além da razão, a gente consegue dançar Techno abraçadinho (seja consigo mesmo ou com um(a) parceiro(a)) e sorrir do começo ao fim de um set. Techno não só se tornou parte da cultura musical brasileira, como passou a ter uma expressão única quando em solos tupiniquins, expressão essa que passou a interessar até os produtores das mesmas cenas que nos inspiraram lá no começo. Não é a toa que grandes nomes brasileiros como Renato Ratier, Gui Boratto, Anna e Victor Ruiz tem espaço e oportunidades de apresentarem seu jeitinho brasileiro ao redor do mundo, cativando as pistas com o calor que sabemos trazer para tudo em que tocamos.
Force on the dance floor!

Share this Post

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.